Prefácio
Não foram poucas as vezes em que amigos e camaradas — trabalhadores empenhados em elevar a cultura das massas — recorreram a mim com o pedido insistente de que escrevesse algo sobre Stálin, algo que tivesse valor histórico e artístico, tomando como base episódios vividos por ele nos anos de 1901–1902, em Batumi.
Naturalmente, resisti durante muito tempo a esses pedidos. E resisti, antes de tudo, porque me parecia difícil decidir de que maneira abordar essa tarefa: como falar sobre Stálin? Como retratar o estrategista, o polemista e o grande praticante da luta revolucionária — o homem extraordinário de toda uma época — de modo que cada leitor reconhecesse nele não apenas uma figura histórica distante, mas um ser humano vivo, em toda a sua estatura, sem reduzi-lo a fórmulas prontas ou esquemas artificiais?
Por isso, neste esboço, apresento apenas alguns episódios relacionados ao trabalho de Stálin em Batumi.
Este ensaio surge porque ele próprio caracteriza profundamente o Stálin revolucionário, ainda em sua juventude, quando apenas começava a trilhar o grande caminho da vida.
Na história de nossa revolução, os acontecimentos ligados à vida do grande Stálin, e entre eles os episódios de Batumi de 1901–1902, são apenas uma pequena parte de sua grandiosa biografia. Ainda menos espaço ocupam, nessa imensa vida, os acontecimentos descritos neste livro. No entanto, paradoxalmente, são precisamente esses episódios que se revelam indispensáveis para compreender o processo de formação de Stálin, pois estão indissoluvelmente ligados ao crescimento de sua consciência de classe, ao fortalecimento de sua vontade revolucionária e à consolidação de sua ligação orgânica com o povo trabalhador.
A vida de Stálin, assim como a vida de Lênin, está da maneira mais íntima ligada à vida das massas de milhões de trabalhadores e camponeses, cujo destino ambos expressaram. Em todos os seus sofrimentos, em todas as suas aspirações, refletiram-se os anseios vitais dos operários das fábricas e dos camponeses pobres, semelhantes a Khashim Smyrba.
A aparição de Khashim na vida de Stálin não foi um acaso, assim como não foi casual a aparição de Lênin na vida dos trabalhadores em 1917, quando ele expressou e defendeu seus interesses.
Stálin não veio às massas como um estranho, nem como um vencedor distante; veio como trabalhador, e apenas mais tarde como operário, passando, junto com as massas, pelos anos mais duros da reação, experimentando com elas a fome, a miséria e o peso da repressão. E assim como Lênin, compreendia que as massas não podem ser guiadas teoricamente apenas pelo intelecto da mente, mas devem ser conquistadas também pelas afetividades da alma e pelo coração. É precisamente por isso que Stálin, assim como Lênin, amava ilimitadamente os trabalhadores e o povo.
A grandeza e a força de Stálin, assim como a de Lênin, consistiam no fato de que, elevando-se acima das tarefas imediatas, acima das demandas estreitas do cotidiano, permaneciam, ao mesmo tempo, profundamente ligados à vida real do povo, compreendendo seus anseios e sofrimentos, suas necessidades e esperanças, suas vitórias difíceis e seus dias mais amargos.
Lembro-me de como um camponês abecásio, durante a visita de Stalin à aldeia de Otkhara, já na Abecásia soviética, ao expressar todos os tipos de votos de felicidades a Stálin, disse o seguinte:
Naquele momento, vi diante de mim inúmeros começos e finais humanos. E cada um deles, à sua maneira, é extraordinário e precioso. O destino humano é sempre digno de atenção e reconhecimento, pois cada pessoa é um mundo inteiro. Isso é algo conhecido. Mas o que é ainda mais conhecido é que até mesmo o ser humano mais simples e aparentemente insignificante, quando reconhecido, torna-se grande. Quero dizer algo sobre você algo que nem todos conhecem. Tu és abyrkhatsa(1) — um verdadeiro homem.
Certo camponês — delegado ao 5º Congresso dos Sovietes da União Soviética — após a última sessão do congresso, aproximou-se de mim e perguntou:
— Onde ele está? Por que não consigo vê-lo? Eu não preciso desse tipo de milhafre que fica empoleirado, todo bravo e pomposo, numa cerca. Os pássaros passam em rasante, zombam dele, e ele, esse mesmo milhafre — sem sair do lugar, agarrado à cerca — apenas balança uma pata, depois a outra, mas não apanha ninguém. Preciso de uma águia-das-montanhas: daquela que está sempre junto de nós e que sempre captura quem precisa ser capturado. Onde está ele?
Quando lhe disse o nome de Stálin, o camponês, satisfeito, sorriu:
— É esse o camarada mesmo...
Stálin não esteve presente naquela sessão do congresso: ele, como sempre, trabalhava na elaboração das resoluções sobre os informes do governo.
O aparecimento de Khashim no caminho revolucionário de Stálin não foi um acaso. Evidentemente, não se trata apenas de Khashim; trata-se do fato de que, em seu exemplo, os camponeses mais pobres conseguiram vincular seu destino ao destino da classe operária, fundindo as aspirações camponesas com o grande movimento revolucionário do proletariado.
Aquele mesmo Khashim, assim como milhares de outros camponeses pobres, futuros construtores da revolução mundial, conseguiu encontrar um caminho até a alma até mesmo de um camponês ainda insuficientemente consciente, soube unir os trabalhadores de Batumi — os grevistas de 1902 — aos Khashims.
Assim, passo a passo, o movimento operário internacional, sob a direção dos bolcheviques, conquistou para o seu lado milhões de camponeses — tanto russos quanto de outras nacionalidades oprimidas das regiões periféricas.
Foi precisamente a unidade leninista, posta em prática, entre a revolução proletária e o movimento revolucionário camponês que nos conduziu à vitória da Grande Revolução Socialista de Outubro de 1917 e às conquistas que hoje dela colhemos.
Stálin foi o primeiro e mais consequente aliado e camarada de Lênin na elaboração e na condução da política leninista sobre a questão nacional.
Os camponeses trabalhadores do distrito de Gudauta, na Abecásia, reuniram-se em um só soviete, e o poder dos sovietes ali assumiu um caráter genuinamente popular.
Durante anos, os abecásios — um pequeno povo montanhês — foram condenados pelo czarismo ao extermínio, privados de seus direitos à livre organização econômica e cultural, expulsos de suas terras, privados de qualquer perspectiva histórica. Mas a Revolução de Outubro (a revolução na Abecásia) devolveu-lhes a possibilidade de existir como povo, abriu diante deles um futuro independente, libertou-os de séculos de opressão e violência. Mulheres e crianças, esse estrato mais vulnerável da sociedade, passaram a sentir, pela primeira vez, o que significa viver com dignidade humana.
E tudo isso não teria sido possível se Stálin não tivesse assumido esse papel decisivo.
Esse papel de Stálin na elaboração e na aplicação da política leninista sobre a questão nacional foi determinado pelo fato de que, já em um dos primeiros atos legislativos do poder soviético, redigido diretamente sob a orientação de Stálin, estava prevista a plena igualdade e o livre desenvolvimento de todos os povos, nacionalidades, minorias étnicas e grupos demográficos que habitavam o território da Rússia.
Stálin trabalhou e atuou durante muitos anos na Transcaucásia. Os operários e camponeses daquela região o guardaram em seus corações com um afeto caloroso, chamando-o de seu dirigente e lutador revolucionário próximo mais íntimo. Não foi por acaso, portanto, que os escritores abecásios de Batumi solicitaram insistentemente que fossem registradas e publicadas memórias sobre Stálin, ainda que relativas a um passado distante.
No entanto, o amor a Stálin nasce no coração do povo trabalhador da Transcaucásia não como um sentimento limitado ao orgulho nacional. Trata-se daquele mesmo amor imenso com que os trabalhadores da Transcaucásia tratam Lênin — um amor profundo que os trabalhadores revolucionários do mundo inteiro dedicam tanto a Lênin quanto a Stálin, como grandes figuras revolucionárias da humanidade.
Stálin e seu partido são fortes graças ao apoio imensurável dos Khashims e Ivans, e esses nomes simples e humildes tornaram-se invencíveis porque à sua frente está um dirigente firme, indestrutível e brilhante — nosso, querido e amado, Stálin!
Nestor Lakoba
Presidente do Conselho de Comissários do Povo da
República Socialista Autônoma Soviética da Abecásia (RSASA)
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Stálin e Khashim
Nas franjas de Batumi, fábricas, usinas e vilas operárias se espalhavam pela paisagem. Encostadas a elas — quase como se fossem abraçadas pelas chaminés fumegantes — ficavam as aldeias dos adjarianos e abecásios. Na época que descrevemos, o gigante industrial de Batumi era a fábrica “Bnito”, dos Rothschild, onde trabalhavam cerca de seis mil operários. A fábrica de Khachaturian empregava outros mil e duzentos; os dois complexos industriais de Mantashev somavam mais quatro mil trabalhadores, enquanto uma série de pequenas fábricas reunia, cada uma, entre dois e três mil operários. Somava-se a isso a orla, onde trabalhos temporários ocupavam até três mil pessoas.
A esmagadora maioria dessa força de trabalho vinha das populações locais — adjarianos, mingrelianos e georgianos — e dos camponeses pobres de Guria, Mingrélia, Imerícia e Abecásia, além de um contingente de russos, armênios e outros povos. Eram, sem exceção, gente humilde que havia abandonado suas aldeias e roças na esperança de encontrar, no chão de fábrica, algum alívio para uma vida dura e instável.
Esses operários costumavam se instalar nos bairros de Barkhani e Gorodka. No entanto, à medida que a massa de trabalhadores crescia ano após ano, esses povoados ficaram insuportavelmente apertados. O problema era tal que os “donos da cidade” começaram a quebrar a cabeça tentando descobrir onde alocar mais operários e suas famílias.
Para além de Barkhani e Gorodka(2), porém, estendia-se um vasto pântano que carregava o sugestivo nome de “Chaoba”(3). Ali, sem exagero, a “terra” era vendida por um preço simbólico — literalmente uma moeda por sazhen(4). Naturalmente, tamanha “pechincha” empurrava muitos trabalhadores desesperados a agarrarem aquela oportunidade, lançada com indiferença pelos funcionários públicos. Assim, sobre o lodo dos pântanos, começaram a surgir casas improvisadas sobre estacas, como palafitas precárias, formando aos poucos mais uma grande favela operária.
A esses três assentamentos — Gorodok, Barkhani e Chaoba — somavam-se as aldeias vizinhas de Makhinjauri, Ferma, Geleli, Salibauri, Ankisa e Khabaderi. Parte dos moradores desses vilarejos, seja pela falta de terras cultiváveis ou pela pura pobreza, era forçada a buscar sustento nas fábricas, usinas e serviços costeiros. Dessa forma, a ligação estreita entre operários e camponeses não se baseava apenas na proximidade geográfica, mas, sobretudo, numa condição econômica quase idêntica.
Quando essa massa proletária empobrecida recebeu a primeira semente revolucionária, ela germinou rapidamente.
Dos bairros operários começou a ecoar, cada vez mais nítida, a voz indignada contra o desamparo e a fome, um clamor que logo tomou também as aldeias camponesas. E quanto mais as autoridades se empenhavam em abafar esse rumor revolucionário, mais firme se tornava o despertar da consciência de classe entre trabalhadores e camponeses.
Aos poucos, a agitação ganhou formas definidas. Em 1897, organizou-se em Barkhani o primeiro círculo social-democrata clandestino. Alguns anos depois, enquanto novos círculos surgiam no mesmo bairro, aparecia no vilarejo de Khabaderi um grupo revolucionário camponês, ligado diretamente aos operários ativistas das fábricas de Sidiridis, Mantashev e Khachaturian.
Entre 1897 e 1901, o número reduzido de participantes do círculo de Barkhani impedia um trabalho de grande escala; sua atividade era, essencialmente, de propaganda.
Nos dias festivos, era comum que operários se reunissem na praça de Barkhani — sempre verdejante — para brincadeiras, jogos e danças. Os propagandistas aproveitavam justamente esses momentos de descontração para conversar com os grupos de trabalhadores mais politizados. A polícia sabia da existência do círculo, mas desmantelá-lo em flagrante era quase impossível: sempre que um guarda surgia, os grupos de discussão instantaneamente começavam a jogar bola, simulando que nada acontecia.
Quem coordenava as “danças” que davam cobertura ao trabalho revolucionário era o professor de dança Ivlian Shapatava. A aparente inocência daquelas brincadeiras convencia a polícia de que não havia nada “proibido” ali. Às vezes, a bola ia parar perto de um policial, ou até acertava sua cabeça acidentalmente, o que tornava a cena ainda mais natural e deixava os guardas convencidos de que os encontros eram inofensivos.
O cenário mudou no final de 1901, quando chegou de Tiflis a Batumi um dos dirigentes do então unificado Partido Operário Social-Democrata Russo (POSDR) — o homem a quem fora confiada a direção do trabalho clandestino na cidade: o camarada Soso Dzhugashvili (Josef Vissarionovich Stálin).
O camarada Soso, como os operários revolucionários o chamavam, instalou-se na rua Tiflisskaia, no apartamento de um operário da fábrica de Mantashev chamado Tchaidze.
Após se inteirar das atividades em Barkhani, Soso conversou com Ivlian Shapatava e foi categórico:
— O trabalho de vocês é importante e avança, porém ainda devagar demais; precisamos garantir que o movimento revolucionário se desenvolva o mais rápido possível.
Logo ao iniciar sua atividade, o camarada Soso tratou de reunir os membros do círculo de Barkhani. Usando as conexões que eles mantinham, começou a atrair mais grupos, confiando a cada um tarefas específicas: fazer agitação política dentro das fábricas e usinas, identificar operários confiáveis e integrá-los ao aparelho clandestino.
A primeira reunião estratégica, restrita a representantes das fábricas de Mantashev, Rothschild e Sidiridis, ocorreu sob a direção direta de Soso. Segundo o relato do camarada Kotrikhadze, Soso foi direto ao ponto:
— Camaradas, fui enviado pelos operários de Tiflis. Como sabem, eles já despertaram e estão realizando uma luta aberta. Batumi ainda está muito sonolenta. Minha convocação é simples: sigam o exemplo de Tiflis. Unam-se a eles na luta contra nosso inimigo comum.
O segundo encontro, já com um quórum maior, aconteceu no apartamento de Tchaidze. Ali, Soso definiu o alvo:
— De Mantashev e seus capatazes até a polícia, todos são nossos “patrões”. E que tipo de patrões? Aqueles que exigem que produzamos mais, comamos menos e calemos a boca sobre nossa fome. É contra eles que lutamos, para conquistar o direito de falar abertamente sobre nossas necessidades e desejos.
Foi a primeira vez que ouviram o nome de Lênin. — Relata o camarada P. Dolibadze, um dos participantes daquela reunião na madrugada. — Na boca de Soso, citar Lênin era sinônimo de recrutar trabalhadores de confiança para a revolução.
— Precisamos das massas, — insistia Soso, — e apenas das massas. Sem ela, não vamos chegar a lugar algum.
As palavras do camarada Soso logo se concretizaram e a teoria logo se converteu em prática. Círculos políticos começaram a brotar dentro das fábricas, radicalizando os operários. Em 1901, a fábrica “Bnito” viu suas primeiras reivindicações econômicas. Estava claro que o movimento clandestino estava prestes a transbordar para a ação direta.
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O trabalho clandestino do camarada Soso, enquanto ainda estava morando na Rua Tbilisi, porém, não passou despercebido pela polícia, a Okhrana. Sentindo o cerco se fechar, ele foi forçado a se mover. Primeiro, escondeu-se em Gorodok, na casa de Silibistro Lomdzharia. Mas nem ali, nem na casa de Alania, a segurança era garantida. Soso vivia em trânsito constante, mas o problema maior era a gráfica: ele precisava de um esconderijo seguro não apenas para si, mas para a tipografia clandestina que estava sendo montada.
A missão de encontrar esse apartamento caiu nas mãos da célula da fábrica de Mantashev, especificamente sob a responsabilidade de Ilarion Darakhvelidze e Ivlian Shapatava.
Chaoba, o novo assentamento operário, erguido sobre o pântano, era um terreno hostil para a polícia. Os agentes do czar detestavam sujar as botas na lama intransitável daquele povoado, o que tornava a vigilância ali frouxa.
Havia uma casa ideal numa pequena vila imunda, dividida entre dois proprietários. Uma metade, com três cômodos, já era habitada por Ivlian Shapatava, sua esposa Despina Shapatava e sua família. A outra metade, pertencente a Mato Rusidze, estava vazia. O plano foi executado rapidamente — a célula decidiu alugar a parte vazia em nome dos irmãos Ilarion e Darispan Darakhvelidze, criando uma cobertura legal.
Uma semana após os irmãos ocuparem dois dos quartos, Soso mudou-se discretamente para o terceiro junto com sua parceira: a tipografia clandestina.
Quase ao mesmo tempo em que o camarada Soso se instalava no cômodo dos irmãos Darakhvelidze, chegou também outro militante operário da época — Konstantin Kandelaki.
Com Soso instalado na casa dos Darakhvelidze, a operação mudou totalmente de ritmo. Funcionava com a precisão de um relógio. O trabalho tornou-se ainda mais planejado, persistente, enérgico e fervoroso: A rede de células se expandiu, mais e mais operários conscientes eram atraídos para a causa revolucionária e o despertar da consciência de classe penetrava profundamente nas amplas massas operárias.
Quase todas as noites, Soso reunia, naquela casinha nos pântanos imundos de Batumi, quadros e militantes das células operárias para planejar greves e intervenções políticas direto das fábricas. Terminadas as reuniões, o trabalho braçal começava. Ao lado de seu incansável auxiliar, o tipógrafo Georgi Telia, Soso passava a madrugada imprimindo os jornais, panfletos, filipetas e manifestos que haveriam de incendiar toda a região.
A resposta era instantânea. Cada insulto da administração, cada discurso das autoridades em defesa da burguesia, era rebatido imediatamente por um panfleto ou filipeta saído daquela impressora desengonçada. Os textos incendiavam e comoviam as fábricas, provocando discussões acaloradas entre os trabalhadores sobre a importância de declarar abertamente seus direitos e interesses, apresentar suas reivindicações, necessidades e de dobrar os patrões, os obrigando a cumpri-los.
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As explosões foram inevitáveis.
Em 31 de janeiro, os operários de Mantashev entraram em greve contra a direção da fábrica. A resposta policial foi brutal — mais de cem prisões. Mas a greve resistiu por duas semanas e terminou com vitória total dos trabalhadores. O administrador foi demitido, os operários readmitidos e os dias parados, pagos.
A tensão migrou para a fábrica dos Rothschild. Após a demissão de trezentos e oitenta e dois operários rotulados como “politicamente instáveis”, uma nova greve eclodiu em primeiro de março de 1902, desta vez sob a direção de Soso. As exigências eram claras: readmissão dos demitidos e jornada de trabalho de oito horas.
O ápice ocorreu em 7 de março de 1902. Na praça do Bazar Turco, aconteceu a primeira grande manifestação operária da história de Batumi. Seis mil trabalhadores reuniram-se em assembleia aberta. A resposta do Estado veio a cavalo — o comício foi violentamente dispersado pelos cossacos, resultando em mais cem trabalhadores presos.
No dia seguinte, 8 de março, a resposta de Soso foi uma impressionante demonstração de força, exigindo a libertação imediata dos detidos.
Uma multidão sem precedentes tomou as ruas, marchando cantando palavras de ordem uníssona em direção à prisão regional. A escala do protesto paralisou as autoridades; guardas recuaram e ninguém ousou interceptar a multidão. Somente quando a massa humana atingiu as muralhas da prisão é que o aparato repressivo reagiu, cercando os manifestantes com um anel de cossacos montados.
Foi então que a informação circulou: os presos não estavam ali, mas nas “casernas de transferência”, do outro lado da cidade.
Apesar do cerco, a multidão girou e marchou rumo ao novo destino. Os cossacos, sem quebrar a formação, acompanharam o movimento como lobos pastoreando um rebanho. A tática militar logo ficou clara — o objetivo era empurrar a manifestação para dentro do pátio fechado das casernas. Percebendo a armadilha, muitos manifestantes ficaram para trás e dispersaram. Quando o grupo finalmente alcançou os portões, restavam apenas cerca de quatrocentos a quinhentos irredutíveis, exigindo a libertação dos seus companheiros ou que fossem presos com eles.
Com astúcia, os cossacos fecharam o cerco. Empurrados para o pátio, todos foram detidos.
Entre eles estava Ivlian Shapatava. Sua salvação foi sua vida pública, reconhecido como professor de dança da cidade e inofensivo, sem antecedentes criminais registrados, foi liberado sob “palavra de honra”.
Ivlian correu direto para o esconderijo. Ainda ofegante, alertou Soso:
— Com esse desastre, é questão de tempo até chegarem aqui e localizarem a nossa tipografia. Precisamos tirá-la imediatamente ou estamos perdidos.
A resposta de Soso foi de uma calma desconcertante.
— Vamos organizar outra manifestação para libertar os quatrocentos e cinquenta companheiros. Quanto à tipografia, não vamos nos preocupar com ela agora. Eles não atacarão tão cedo.
Na manhã de 9 de março, os operários dobraram a aposta. Mais de três mil trabalhadores inundaram as ruas, avançando como uma avalanche impetuosa em direção às casernas de transferência. À frente, na linha de choque, marchavam Soso e Geronti Kalandadze.
Ao se aproximarem do alvo, deram de cara com uma parede de baionetas — os soldados do Capitão Antadze bloqueavam a passagem. O medo fez a multidão hesitar, com braços dados na linha de choque, a voz do grito do camarada Stálin cortou o silêncio, firme e audível sobre o tumulto:
— Não tenham medo dos comandantes! Os soldados não atirarão em nós. Vamos para cima deles de cabeça erguida e libertaremos nossos companheiros!
Inflamada, a multidão rugiu e avançou de forma ameaçadora: “Soltem nossos companheiros ou nos prendam também!”. Um enfrentamento aberto entre os manifestantes e a polícia começou. Dentro das casernas de transferência, os prisioneiros se agitaram, os portões foram rompidos e começaram a fugir.
Porém, o capitão Antadze cometeu o absurdo: “Fogo!”. Embora alguns soldados tenham atirado para o alto, hesitantes, muitas balas encontraram a carne dos trabalhadores. Quatorze operários caíram mortos. Mais de quarenta ficaram feridos no pavimento.
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O massacre de 9 de março foi o ponto de não retorno. O proletariado de Batumi respondeu à brutalidade com uma Greve Geral. Os funerais das vítimas transformaram-se em um grande ato político massivo, onde oradores expunham a vergonha do czarismo e seus patrões — os capitalistas.
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Os acontecimentos de 9 de março foram decisivos para despertar, de forma profunda, a consciência de classe dos trabalhadores de Batumi. O camarada Soso soube transformar aquele choque coletivo em uma poderosa oportunidade de ampliar a propaganda socialista, consolidar a organização operária e unir ainda mais os trabalhadores sob a bandeira do Partido.
Pouco depois, os quatrocentos e cinquenta operários detidos nas casernas de transferência foram expulsos da cidade. Eram trabalhadores rurais e camponeses sem-terra — gurianos, mingrelianos, imeretianos e de outras regiões — que tinham visto com os próprios olhos o massacre. Ao retornarem para suas aldeias, levaram escondidas as proclamações, panfletos e filipetas escritas por Soso sobre os eventos de 9 de março. O país inteiro ficou sabendo dos acontecimentos de Batumi. Esses textos atravessaram vales e montanhas, espalhando o impulso revolucionário pelas comunidades da Geórgia Ocidental, onde caíram como faíscas em palha seca. Logo em seguida, ergueram-se insurreições camponesas diretas contra os latifundiários e contra o governo.
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A organização revolucionária sofreu perdas sérias, mas o golpe de 9 de março não abalou suas fileiras. Pelo contrário: os sobreviventes se uniram ainda mais, solidários e endurecidos pela experiência.
Porém, agora a polícia tinha um bom rastro. Desde aquela manifestação inesquecível, a polícia passou a perseguir o camarada Soso em todos os lugares, sem nenhum descanso.
A pista surgiu do próprio Soso. Tudo começou porque entre os feridos pelas balas czaristas estava Gerontiy Kalandadze. Ele levou um tiro no braço. Ignorando o perigo, Soso colocou o camarada num carrinho de mão e o arrastou por horas entre becos, vielas, atalhos até o esconderijo no pântano. Embora a polícia não tenha conseguido seguir o trajeto exato na hora, por conta do caos, os indícios começaram a apontar perigosamente para aquela direção.
Soso percebeu o cerco se fechando. Orientou os irmãos Darakhvelidze e todos os demais moradores a usassem táticas de contra-vigilância, como entrando e saindo por pátios e becos diferentes, cada um utilizando entradas distintas para despistar qualquer vigilância.
Duas semanas depois, a situação tornou-se crítica. Graças à observação atenta dos militantes sobre os movimentos da polícia, ficou claro — os agentes da Okhrana já sabiam tanto onde funcionava a tipografia clandestina quanto onde ficava o apartamento de Soso. A repressão apenas aguardava o momento mais favorável para um flagrante — atacar a tipografia enquanto estivesse operando, com o máximo de pessoas juntas.
Ivlian Shapatava insistiu novamente: a máquina precisava ser movida agora. Mas Soso se opôs.
— Não se preocupem — disse ele. — Eles não virão hoje. Amanhã teremos tempo para ocultar e transferir tudo. Eu não saio daqui.
Foi uma decisão de sangue frio. Durante todo aquele dia e a madrugada inteira, o camarada Stálin trabalhou sem descanso na gráfica. Só no dia seguinte, depois de terminar a tiragem necessária de jornais e panfletos, ele começou a desmontar e transferir o equipamento para outro esconderijo mais seguro.
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O cemitério de Souk-Su ficava na estrada que ligava Gorodok à aldeia de Makhmudia. Seu zelador, Illarion Kachakhmadze, era membro do POSDR de Batumi. Anos depois, ele recordaria o papel curioso — e decisivo — que aquele cemitério acabou desempenhando no movimento revolucionário nas encostas das montanhas.
Pouco antes dos acontecimentos sangrentos de março, em fevereiro de 1902, — conta ele, — Silibistro Lomdzharia veio me procurar. Disse que havia sido enviado por Soso Dzhugashvili e que Soso queria realizar uma reunião secreta no cemitério.
Entendi imediatamente o que precisava ser feito e deixei tudo preparado na hora combinada. Choveu a noite inteira, mas, apesar disso, a reunião teve boa participação. Os Assistentes foram os camaradas Soso Dzhugashvili e Konstantin Kandelaki. Não me lembro de tudo o que disseram, mas sei que a tarefa principal apresentada aos trabalhadores era levar adiante suas reivindicações econômicas perante os patrões.
O problema veio ao amanhecer. Acordei o mais cedo possível para recolher as bitucas de cigarro e pegadas deixadas no chão; a chuva já tinha apagado qualquer outro vestígio de que ali estivera um grupo durante a noite. Depois disso, preparava uma cova para um enterro agendado. Foi então que um guarda-chefe vindo de Gorodok apareceu. Ele se aproximou de mim com uma voz tensa e ameaçadora:
— Então quer dizer que é aqui? Aqui teve uma reunião cheia de gente ontem à noite e você não sabe de nada?!
O que eu poderia responder? Disse apenas que “trabalho durante o dia e o que acontece aqui à noite não é da minha conta”. O guarda ficou furioso, passou a gritar, mas, percebendo que eu não lhe dava a menor atenção e continuava cavando de costas para ele, acabou cuspindo no chão e indo embora.
No final de fevereiro, praticamente às vésperas dos acontecimentos de março, Soso convocou outra reunião noturna no mesmo cemitério. Ali, já se discutia em detalhes o plano para a greve que já se tornava iminente.
O cemitério de Souk-Su tornou-se, assim, um refúgio seguro para os revolucionários em momentos particularmente difíceis.
Mas o teste de fogo de Souk-Su aconteceu numa noite de abril. Uma carruagem parou diante dos portões. Konstantin Kandelaki desceu e chamou Illarion:
— Illarion, escute. Esta impressora — disse ele, apontando para a carroça — foi enviada pela organização. Você precisa escondê-la bem.
Dentro da carruagem estavam dois grandes jarros de tipos tipográficos e uma prensa. Illarion chamou sua esposa e, juntos, carregaram a prensa e os jarros até um milharal próximo à sua casa. A carruagem partiu rapidamente, levando Kandelaki consigo.
Illarion já estava quase chegando ao milharal quando o som inconfundível de cascos de cavalo cortou o ar. Carregando a pesada prensa, agachou-se atrás de um precário arbusto e viu um destacamento de gendarmes a cavalo avançando em direção a Gorodok. Ele esperou e esperou, assim que passaram, ele se ergueu para continuar o caminho — mas o som voltou. Novamente, jogou-se no mato prendendo-se ainda mais à máquina. Agora eram os cossacos que cruzavam o caminho, também rumo ao cemitério.
Não era uma ronda comum. Eles estavam caçando Kandelaki e a tipografia, que por alguns minutos de diferença não havia sido capturada.
Do cemitério, a máquina foi levada para a casa de Silibistro Lomdzharia. Porém, a segurança ali também era meramente temporária. A polícia enfiava o nariz em toda Gorodok. A direção da organização percebeu que a situação era urgente — a tipografia precisava ser movida para longe, e rápido, mas de forma que Soso pudesse continuar operando nela sem interrupções, ainda que a polícia vasculhasse a cidade inteira dia e noite.
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Nos arquivos da Comissão Arqueográfica Caucasiana encontra-se um documento que afirma, sem a menor hesitação: “Em 1830, a Abecásia finalmente se submeteu”.
Assim escreveu o Sátrapa real em seu relatório, com a frieza e a insolência de quem acredita poder reorganizar povos inteiros com meia dúzia de linhas burocráticas.
Mas o ano de 1830 marcou, na verdade, um dos episódios mais trágicos da história Abecásia. Era a voz insolente do império tentando reescrever a história. A realidade por trás daquele relatório era um desastre humanitário. “Submeter” a Abecásia não foi um ato administrativo, foi um banho de sangue e lágrimas — cobrindo as estradas com os corpos de homens, mulheres e crianças que jamais aceitaram a servidão. Durante séculos, aquele povo defendeu sua liberdade, e os invasores só conseguiram abrir caminho sobre uma montanha de cadáveres, consolidando sua vitória através de uma violência imensurável.
Quando aqueles relatórios foram escritos, os conquistadores acreditavam que a região estava pacificada para sempre. Porém, a “submissão” existia apenas no papel. O povo abecásio tinha, na verdade, uma visão muito diferente.
Nas montanhas, a resistência assumiu a forma dos abreks. Os abreks — frequentemente taxados de “bandidos” pelos administradores czaristas — não eram criminosos comuns. Eram homens que não toleravam a interferência dos funcionários do czar em suas vidas, que rejeitavam o batismo forçado e o arbítrio dos oficiais. Lutavam contra os soldados, matavam burocratas, atacavam destacamentos militares e não mostravam misericórdia nenhuma aos missionários católicos. Atacavam e desapareciam nas fendas das montanhas. Perseguidos sem descanso, refugiavam-se e passavam a viver à margem da lei, se tornando, assim, abreks — pessoas à margem da lei.
As grandes batalhas travadas entre os camponeses abecásios e as tropas czaristas tornaram-se um capítulo marcante tanto da conquista do Cáucaso quanto da história do movimento de resistência na Abecásia. O confronto mais importante terminou com o aniquilamento de um grande destacamento de cossacos, comandados pelo coronel Konyar, na Praça de Lykhny — o mesmo que, dias antes, proclamava as supostas “leis misericordiosas” do czar, rejeitadas por uma população já exausta.
A represália russa foi a limpeza étnica — iniciando uma campanha de repressão sem precedentes. Os abecásios foram forçados a abandonar suas aldeias e iniciaram o êxodo para a Turquia.
Assim, em 1877, multidões de abecásios — famílias inteiras carregando poucos pertences, pequenos punhados da terra natal embrulhados em lenços e capuzes e a dor do desterro — desceram das montanhas rumo ao mar. Eram os makhajires — os exilados.
Na praia, navios turcos com crescentes vermelhas tremulando nas velas esperavam por eles. E os makhajires partiram. Deixaram a Abecásia em busca de dias mais tranquilos, de um pedaço de chão fértil onde trabalhar e viver em paz.
O destino, porém, foi cruel — muitos, sem recursos para seguir viagem até as terras prometidas na Turquia, ficaram à deriva e desembarcaram em Batumi. Aqui, os abecásios começaram por trabalhar diariamente em trabalhos costeiros e, posteriormente, estabeleceram-se juntamente com os adjarianos nos arredores de Batumi.
Foi em Makhmudja que a história da resistência abecásia cruzou com a de Soso.
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Na aldeia de Makhmudia vivia um abecásio chamado Khashim Smyrba — um dos mahajiris que, décadas antes, haviam sido arrancados de sua terra pelas convulsões da história. Khashim carregava nos olhos o peso de quem conheceu o exílio, a pobreza, o trabalho duro, mas também a dignidade silenciosa que muitos camponeses da região reconheciam imediatamente. Entre os vizinhos, era tido como um homem honesto, direto, quase duro — e justamente por isso, confiável.
Foi a ele que a organização revolucionária de Batumi recorreu quando a situação se tornou crítica.
Khashim sabia pouco sobre revolução, mas sabia o suficiente sobre miséria, injustiça e violência do czarismo para entender que havia algo profundamente errado no mundo em que vivia. Quando Silibistro Lomdzharia chegou em sua casa, já tarde da noite, e explicou que precisavam esconder a tipografia clandestina e o camarada Soso, Khashim não pediu detalhes. Apenas respondeu, com aquela firmeza grave de quem não precisa repetir uma decisão tomada:
— Tudo bem, tudo bem...
E nessa mesma noite, ele mesmo, acompanhado do filho Hemd e do genro Redzheb, montou a cavalo e transportou, da moradia de Lomdzharia até sua própria casa, a pesada prensa e os tipos da impressora. No dia seguinte, Soso se mudou para lá — entrando sem cerimônia na vida de Khashim, como um hóspede secreto que o destino empurrou para dentro da sua vida.
Os vizinhos logo começaram a notar movimentos estranhos. Mulheres usando véus chegavam com frequência na casa de Khashim — mas, sob o tecido, era fácil perceber ombros quadrados, passos pesados, barbas salientes, gestos que não pertenciam ao corpo feminino da região. Homens disfarçados como mulheres entravam e saíam de sua casa, e, quase todos os dias, Khashim saía rumo às aldeias carregando uma cesta de verduras exageradamente pesada.
Ninguém sabia — mas as mulheres de véu eram os tipógrafos da gráfica clandestina, e na cesta de Khashim, sob camadas de folhas verdes e frutas, havia jornais, proclamações, panfletos, textos inflamados vindos das mãos de Soso.
Khashim não apenas escondeu o camarada Soso, tornou-se ele mesmo um elo vital na circulação dos materiais revolucionários. Distribuía panfletos entre os camponeses, nos mercados, em fábricas e usinas. Às vezes, sob orientação de Soso, os levava para Poti e Ozurgeti, escondidos em repolhos frescos. Quando algum tipo suspeito se aproximava, Khashim murmurava, teatralmente cansado:
— Alá, Alá! Para um velho pobre como eu, é duro carregar frutas..., mas a miséria obriga.
E então, quando reconhecia um operário confiável, a mágica acontecia: embrulhava as “frutas” com panfletos e proclamações e as entregava sem dizer uma palavra a mais.
Enquanto isso, os vizinhos continuavam coçando a cabeça e trocando olhares. Entravam e saíam figuras encobertas; Khashim vendia verduras todos os dias; ali dentro, algo acontecia — algo perigoso, algo proibido. E chegavam a suas próprias conclusões: Khashim imprimia dinheiro falso; Soso era um falsificador. De fato, o próprio Khashim, antes de ser incorporado à distribuição, também acreditava nisso.
Até que, numa noite, alguns camponeses abecásios e adjarianos vieram visitar Khashim. Conversaram longamente sobre o que sempre conversavam — o preço dos grãos, o trabalho duro, a falta de dinheiro — até que um deles se virou para Soso e perguntou, sem rodeios:
— Escuta aqui, Soso. Você é um bom homem, está fazendo um bom trabalho. Para a gente que é pobre, achamos que sua ajuda logo vai chegar. Você trabalha todas as noites imprimindo..., mas até agora não vimos resultado. Quando você vai usar esse dinheiro?
Soso ficou quieto. Um pouco incrédulo. Por um longo instante — longo o suficiente para que o silêncio pesasse no ar. Observou cada rosto: a fadiga, a expectativa, a esperança ingênua. E então respondeu, com calma, e mostrando um interesse excepcional na curiosidade daqueles velhos:
— Escutem, companheiros… Eu não sou falsificador e não fabrico dinheiro falso. Quero ajudá-los, sim, mas não da maneira que pensam. Eu não imprimo dinheiro. Eu imprimo jornais, proclamações e panfletos. Escrevo nelas porque vocês vivem tão mal e como isso pode ser transformado. Quero que vocês, junto com os operários, derrubem o czar e construam um governo nosso — para que possam dirigir suas próprias vidas e o seu próprio trabalho.
Os anciãos permaneceram em silêncio, tragando os cachimbos, apenas observando. Olharam uns para os outros com aquela comunicação muda que só os velhos camponeses conhecem — um olhar para pergunta, um olhar para resposta. Até que o mais idoso entre eles falou, com uma voz rouca, pausada e ao mesmo tempo cheia de força:
— Ótimo, Soso. O que você está fazendo não nos é estranho. Talvez não o ajudássemos a falsificar dinheiro — disso não entendemos nada. Mas quando você diz que o czar nos impede de viver, isso nós entendemos bem. E agora cada um de nós vai lhe ajudar. Até hoje, só Khashim o escondeu. De agora em diante, todos nós o esconderemos, a você e ao seu trabalho, enquanto tivermos forças.
Eles foram embora, deixando na casa um silêncio que parecia mais autorização que ausência.
Quando ficaram a sós, Soso se aproximou de Khashim e disse:
— Talvez eu esteja te incomodando. Talvez você não queira acabar na prisão comigo. Se quiser, eu vou embora.
Khashim ficou calado. Acendeu o cachimbo, puxou a fumaça devagar, como se mastigasse um pensamento difícil de engolir. Depois, olhando Soso com um olhar firme, respondeu:
— Você viu meus dois cachorros no pátio? Fique tranquilo. Enquanto eles estiverem ali, ninguém entra nessa casa.
Fez uma pausa. O rosto endurecido se suavizou por um instante:
— Você é um bom homem, Soso. Só é uma pena que não seja muçulmano.
Soso sorriu:
— E o que aconteceria se eu fosse muçulmano?
— Se você se converter, dou-lhe minhas sete jovens filhas em casamento. Nunca viu nada igual. Quer ser muçulmano?
O sorriso de Soso se abriu como um entendimento entre amigos:
— Ótimo! — disse, apertando a mão de Khashim.
Khashim guardou essa lembrança como um tesouro até o fim da vida. Não pela piada — mas pelo respeito de Soso, por não ter zombado de suas crenças. Contava essa história aos setenta anos, sempre com brilho nos olhos, para seu filho Hemd e para Mustafa Atsanba.
Na manhã seguinte, Khashim surgiu diante de Soso com um humor iluminado:
— Não tenha medo de nada. Seu trabalho vai terminar muito bem.
— Por que acha isso? — perguntou Soso.
— Tive um sonho, Soso. Sonhei que você libertava todo o Cáucaso dos soldados do czar. E parecia que a vida ficava tão fácil, tão boa… tão livre para todos nós. É um sonho bom. Muito bom, Soso!
Khashim repetiu esse sonho para Mustafa Atsanba durante anos — como se, ao narrá-lo, ajudasse um pedaço dele a se realizar.
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Certa noite, o camarada Stálin estava no apartamento dos irmãos Darakhvelidze, sentado com Konstantin Kandelaki. A conversa era tranquila, quase doméstica, mas havia algo pesado no ar — um daqueles silêncios subterrâneos que prenunciam perigo. Debaixo da casa, sem que eles suspeitassem, espiões aguardavam na escuridão, ouvindo cada palavra(5).
Não demorou para que a porta fosse arrombada. A polícia invadiu o apartamento de uma só vez, e em poucos minutos toda a casa estava cercada. Tinham vindo preparados, como se esperassem capturar criminosos perigosos — não militantes clandestinos.
A busca foi longa. Vasculharam todos os cantos, derrubaram objetos, remexeram gavetas, mas nada encontraram. Mesmo assim, declararam presos Soso, Konstantin Kandelaki e os irmãos Darakhvelidze. Enquanto isso, o camarada Soso permanecia encostado à janela, fumando calmamente, quase desinteressado, repetindo aos camaradas que aquilo era puro disparate e que não valia um lampejo de preocupação(6).
Era 5 de abril de 1902.
Durante os dias em que Stálin permaneceu na prisão de Batumi, Khashim Smyrba tentou visitá-lo inúmeras vezes. Todas as tentativas foram rejeitadas sem explicação. Mesmo assim, Khashim continuava rondando o pátio exterior, andando de um lado para outro, inquieto, fiel — como se sua presença silenciosa fosse uma forma de vigília.
Do outro lado das grades, Stálin o observava da estreita janela da cela. Muitas vezes via apenas a figura curva do camponês, caminhando com passos pesados, incapaz de reconhecê-lo naquele retângulo escuro.
Até que um dia, Soso o chamou:
— Khashim! Khashim! Como você está, meu amigo?
Khashim virou-se, sobressaltado, procurando a voz. Quando finalmente o viu, levantou os braços e respondeu:
— Tudo bem! Não tenha medo!
E ficou ali parado, olhando para a janela, balançando a cabeça devagar, como quem tenta transmitir coragem apenas com o gesto.
Stálin foi depois transferido da prisão de Batumi para a de Kutaisi, onde ficou sob regime ultrassecreto na chamada “Grande Prisão”. Ali, o isolamento era ainda mais pesado, mas Soso não se deixou imobilizar. Assim que chegou um novo grupo de presos políticos, organizou uma greve.
A comoção dentro da prisão se tornou tão grande que o promotor, o Governador e diversas autoridades tiveram de aparecer pessoalmente. Stálin foi convocado ao interrogatório — no interrogatório, Soso não agiu como réu, mas como negociador: exigiu condições mínimas de vida, direito a não dormir no chão úmido de cimento, possibilidade de adquirir colchões próprios, acesso a uma cela maior e coletiva.
As exigências foram atendidas.
Dentro da nova cela, Soso organizou grupos de estudo. Explicava o programa do Partido, analisava a situação dos operários e camponeses, discutia métodos de organização, estimulava a disciplina política. A prisão se tornou, sob sua influência, uma pequena escola de formação.
Após dezesseis meses de encarceramento, Stálin recebeu a sentença: três anos de exílio na Sibéria Oriental, na aldeia de Novaya Uda, distrito de Balagansky, província de Irkutsk.
No dia de sua partida, os prisioneiros restantes organizaram uma despedida. O que começou como uma simples manifestação de solidariedade transformou-se em um protesto coletivo. As vozes ecoaram pelos corredores de pedra, misturando-se ao barulho metálico das fechaduras — mais uma demonstração de que, mesmo acorrentada, a militância continuava viva.
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Após a prisão de Stálin e o exílio de outros dirigentes revolucionários, uma aparente calmaria tomou conta da resistência clandestina em Batumi. Era como se a cidade tivesse prendido a respiração. Mas quem conhecia as montanhas da Transcaucásia sabia que calmarias assim nunca duravam muito.
De fato, não durou.
Apenas um mês depois de chegar ao exílio, em janeiro de 1904, Stálin escapou — com a mesma determinação silenciosa com que fazia tudo — e voltou de imediato ao trabalho clandestino na Transcaucásia.
Nesse período, havia ocorrido a cisão no 2º Congresso do Partido. Sem vacilar, Stálin alinhou-se a Lênin e aos bolcheviques. Foi então que, certo dia, Soso reapareceu em Batumi vestido de soldado — transformado em Koba, um nome que logo correria de boca em boca entre os trabalhadores.
Quase ao mesmo tempo, um menchevique destacado, Piotr (Noe Ramishvili), também chegou à cidade. Os trabalhadores, ainda inexperientes e politicamente imaturos, tenderam a se alinhar a Piotr. Mas os operários mais firmes, aqueles que já tinham atravessado greves, perseguições e noites clandestinas, foram direto para Koba.
Koba percorreu fábricas e usinas com olhos atentos, observando não apenas a composição da classe trabalhadora, mas também o clima político, as hesitações, os desvios, as fidelidades.
Numa visita à fábrica de Mantashev, encontrou Pavle Dolibadze, conhecido por suas simpatias mencheviques. A aproximação foi direta — Soso não tinha o hábito de contornar uma questão.
— Pavle, é verdade que você começou a pensar como um menchevique?
Ele já havia ouvido rumores sobre o estado de espírito de Dolibadze.
Pavle deu de ombros, olhando para o chão, envergonhado:
— A maioria dos meus camaradas está com eles. Bom, então estou com eles... — murmurou, quase gaguejando.
Stálin o encarou com desaprovação, passou uma das mãos nos cabelos, franzindo o cenho como um professor diante de uma resposta preguiçosa:
— Talvez não seja a maioria — se falarmos da qualidade dos revolucionários. Mas isso não importa agora. Chegará o momento em que vocês descobrirão quem estava certo e quem estava errado.
Sem esperar resposta, virou-se bruscamente e deixou a oficina, deixando Dolibadze imóvel, como alguém que recebeu uma bronca justa sem ter como responder.
Mesmo antes do retorno de Soso, a notícia da divisão no partido já circulava entre os antigos militantes clandestinos. Um dia, Illarion Darakhvelidze perguntou ao velho tipógrafo da gráfica subterrânea e auxiliar de Stálin, o camarada Georgi, o que ele pensava sobre a ruptura.
Georgi respondeu com a serenidade de quem já havia passado por noites de impressão, vigilâncias, tocaias e noites de chumbo:
— Não posso te dizer nada agora. Estou esperando Soso. Quando ele chegar, vou seguir o que ele disser. Tenho absoluta certeza de que Soso não estará errado.
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A partir desse período, o camarada Stalin continuou seu trabalho revolucionário por toda a Transcaucásia — em Tiflis, Kutaisi, Baku, Batumi, Chiatura, no distrito de Ozurgeti e em tantas outras cidades onde a luta clandestina ganhava forma. Foi o principal opositor dos mencheviques na região, travando uma batalha feroz pela hegemonia política e ideológica do bolchevismo.
Os bolcheviques na Geórgia — e logo em toda a Transcaucásia — se formaram e cresceram sob sua direção direta. Mesmo naquela época, ainda jovem, Soso já era reconhecido como teórico, inspirador e organizador central do bolchevismo transcaucasiano. Muitos o seguiam não apenas por disciplina, mas por convicção — porque nele viam um homem que falava pouco, mas que carregava a ação até o fim.
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Então veio 1914 — o massacre imperialista que incendiou o mundo.
O velho Khashim Smyrba, já cansado das idas e vindas da vida, decidiu que seria mais seguro levar sua família de volta à Abecásia durante a guerra. Antes de partir, porém, desceu ao jardim ao entardecer, onde a terra ainda guardava o cheiro dos anos clandestinos. Enterrou os restos da gráfica, embrulhou as peças em trapos e as cobriu com terra úmida. Depois chamou seu filho:
— Está tudo bem, Hemd. Deixe isso aqui. Pode ser que ainda sirva para alguma coisa no futuro.
Após sua partida, soldados instalaram-se na casa. Um dia, ao notarem um pedaço de terra remexida, supuseram que ali havia algo valioso. Cavaram sem delicadeza, encontraram as peças da impressora, examinaram-nas com desinteresse e, por não terem utilidade alguma para eles, espalharam tudo pelo jardim como sucata.
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O tempo passou. A guerra terminou, e a revolução despontou como um amanhecer difícil, mas inevitável.
Khashim, enfim, voltou para sua casa. Encontrou a terra diferente, como se tivesse envelhecido com ele. Caminhou até o jardim, agora tomado por ervas altas, e logo viu os pedaços de ferro espalhados, misturados ao mato, às folhas secas, às marcas do esquecimento.
Ajoelhou-se devagar, como alguém que reencontra um velho amigo. Passou longos minutos recolhendo peça por peça: os tipos, o braço da prensa, os suportes deformados pelo tempo. O ar era silencioso. Só o movimento lento das mãos de Khashim quebrava a monotonia da tarde.
Quando juntou tudo o que pôde encontrar, chamou seu filho:
— Veja, Hemd. Você deve se lembrar do que é isso. Foi com isso que ajudamos a fazer a revolução. Guarde bem. Deixe que fique conosco, para que, olhando para esses pedaços de ferro, eu possa lembrar do nosso querido Soso.
E ali, no pequeno quintal de Makhmudia, entre as montanhas e o vento salgado que vinha do mar, Khashim guardou as últimas relíquias de um tempo clandestino. Eram apenas ferragens enferrujadas — mas, para ele, carregavam a memória de uma amizade improvável, de uma fé profunda na justiça e de um homem que havia passado por sua casa como um fogo: silencioso, disciplinado, mas capaz de incendiar o mundo inteiro.