Carta a Raphael Corrêa de Oliveira

Luiz Carlos Prestes

Maio de 1927


Origem: publicado no Correio da Manhã, ano XXVIII, n. 10.457, p. 1, 5 de fevereiro de 1929.

Fonte: Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.

Transcrição: Vinícius Azevedo.

HTML: João Batalha.

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Gaiba, 25 de maio de 1927

Amigo Sr. Raphael Corrêa de Oliveira – Atenciosas saudações.

Em mãos a sua apreciada carta de 7 do corrente, na qual me pede algumas palavras a fim de com elas abrir o livro que pretende publicar: “A Revolução Brasileira e sua Finalidade Social”.

Difícil, dificílimo mesmo, é atender ao seu pedido. Como prefaciar ou dizer alguma coisa a respeito de um trabalho de que mal conheço, os traços gerais, ou melhor, a divisão em capítulos e os títulos ou assunto que nele devem ser tratados? No entanto, o que logo se percebe é o imenso valor que terá o seu livro como elemento de propaganda da revolução em marcha. O que o amigo crê, e todos nós sentimos, depois de mais de trinta meses de luta, percorrendo o Brasil em quase todos os sentidos, é que a revolução, referimo-nos à guerra civil, resolverá o problema nacional. A revolução venceria pacificamente, se fossem possíveis na nossa atual organização política modificações profundas. Mas quem as fará? Justamente os detentores das vantagens decorrentes da atual situação? Não é crível nem possível. Seria a mesma coisa que pretender modificar o andamento de uma máquina sem intervenção de uma força nova – absurdo mecânico, como no primeiro caso. Seria pretender o absurdo político. Seria o suicídio da politicagem, coisa pouco provável, tratando-se de gente que vive especialmente para o estômago. O que todos nós sentimos é que Epitácio [Pessoa] foi pior que Venceslau [Brás], [Arthur] Bernardes foi pior que Epitácio, Washington [Luís] será pior que Bernardes, e o sucessor de Washington será pior.

Estando, pois, disso convencido, é dever de todos apressar o advento da terceira revolução, ou melhor, da terceira fase de atividade militar. Para tanto criemos uma tradição revolucionária, escrevendo a história dos movimentos anteriores. A par disso, facilitemos o estudo do Brasil sob todos os seus aspectos – econômico, político, moral e mental histórico, etnográfico, físico e social.

Façamos a maior propaganda pelo livro e pela imprensa, certos das palavras de Lenin: “As ideias tornam-se forças quando se apoderam das massas”(1).

Será este, pois, o grande valor do seu trabalho de propaganda.

Afinal, para quem achava difícil dizer alguma coisa sobre o seu livro, muito já está dito. Se estas linhas poderem ser aproveitadas, delas faça o uso que melhor entender.

Luiz Carlos Prestes