A Re-Conquista da Irlanda

James Connolly

02 de setembro de 1899


Primeira edição: Workers' Republic, 02 de setembro de 1899.

Fonte: James Connolly: Lost Writings, (ed. Aindrias Ó Cathasaigh), Pluto Press, 1997.

Tradução e HTML: Guilherme Corona.

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O movimento a favor do emprego direto do trabalho pelos Conselhos Distritais, estabelecido sob a Lei do Governo Local, escarçamente atraiu tanta atenção pública quanto merece. Nossa imprensa nacional está, como regra, tão enrolada no trabalho de registrar os giros dos seus chefes políticos, e tão pouco capaz de perceber a importância de qualquer movimento fora, ou não influenciado pelas correntes ordinárias da atividade política, que eles não podem reservar espaço para cronicar o progresso de um movimento que, se consistentemente seguido, fará mais para colocar os destinos do povo nas suas próprias mãos do que foi feito por todos os movimentos políticos do século.

Parece que pelo Sul da Irlanda os trabalhadores estão agora vigorosamente agitando contra o sistema de entregar obras públicas para contratos privados, e a favor do emprego direto do trabalho pelos Conselhos Distritais. Esta proposta, que virtualmente significa que os trabalhadores emanciparam suas mentes da superstição social que um capitalista privado, caçador de lucro, pode trabalhar melhor para a comunidade do que a própria comunidade pode fazer através dos seus oficiais eleitos e responsáveis, já foi adotada por alguns Conselhos Distritais, e está sendo discutida em outros. O trabalhador então vê nas suas mãos uma arma da sua emancipação - a urna - e já se mostrou preparado para usá-la com uma quantidade de discernimento político não pouco desconcertante para os homens que carinhosamente imaginavam que o chavão do Autogoverno ainda teria seu velho efeito em desviar as mentes dos trabalhadores de qualquer movimento pela melhoria da sua posição enquanto classe. E isto, que seja notado, é só o começo. Enquanto o movimento progride, enquanto o trabalhador vê que o voto que o colocou na posição de ser capaz de eleger seu representante nos órgãos governamentais locais, pode também, se usado apropriadamente, lhe permitir se transferir do emprego de um mestre irresponsável para um servidor de um órgão público, do qual ele próprio é um dos mestres, ele não pode deixar de observar que os argumentos e razões falaciosas com que cada passo nessa direção é recebido pela classe proprietária, são exatamente os mesmos que aqueles com que as demandas da sua nação por justiça política sempre foram recebidos pelos inimigos da liberdade nacional. Ele observará que a classe proprietária nacionalista atira contra o trabalhador os mesmos epítetos, e alega a mesma incapacidade para administração, que eles tiveram atirados contra si quando pressionavam pela sua demanda de indpendência legislativa; ele também observará que o Unionista proprietário se alinhará, sólido como uma rocha, ao Nacionalista proprietário em defesa do seu interesse conjunto na subjugação do trabalho; e finalmente ele descobrirá que neste movimento aparentemente insignificante pelo emprego direto do trabalho há um caminho para a liberdade não só da sua classe, mas da sua nação.

A subjugação da Irlanda que é representada hoje como uma questão meramente política é ao contrário uma questão econômica, social. É somente política porque é econômica. Em outras palavras, a maquinaria política só é propriedade de uma nação dominante para que os poderes sociais possam ser propriedade de uma classe dominante. A conquista da Irlanda é fundamentada na despossessão do seu povo de todo o direito à terra, e de todo o direito a viver exceto nos termos ditados pela classe possuidora, no campo, fazendas, ou oficinas de posse e propriedade dessa classe. Isto é dizer que, a subjugação da Irlanda, como toda outra subjugação, é baseada na dependência econômica do oprimido no opressor. O exército, a marinha, e a polícia são só instrumentos com os quais esta classe garante sua dominação, e a subjugação política da Irlanda à Inglaterra não significa nada mais de que a classe possuidora foi astuta o suficiente para colocar o controle desses instrumentos de dominação fora do alcance do povo irlandês. Na mesma linha de raciocínio será visto que o chamado para a "União de Classes" é na realidade um movimento insidioso da parte da nossa classe mestre irlandesa para ter os poderes de governo transferidos das mãos do governo capitalista inglês para as mãos do governo capitalista irlandês, e pavimentar o caminho para esta mudança induzindo o trabalhador irlandês a abandonar toda esperança de melhoria da sua própria posição, e assumir uma atitude de pálida resignação com seu destino como um escravo-assalariado que possa convencer o governo inglês que ele não faria um uso revolucionário do seu poder político, mas deixaria as coisas como estão. O azedume da oposição ao novo movimento trabalhista é o resultado do rancor sentido pela falha deste plano de desiludir o trabalhador irlandês no interesse do seu mestre irlandês. Institivamente o trabalhador sente que cada passo que diminui sua subjugação econômica a um mestre o leva um passo adiante no caminho da liberdade; ele gradualmente reconhece que na exata proporção que os trabalhadores tomam o controle do trabalho do país das mãos de indivíduos privados e investem no controle de órgãos públicos representando o povo irlandês, na mesma proporção a Irlanda se solta das correntes da escravidão. Por uma busca segura desta política a subjugação da Irlanda pode ser, em grande parte, revertida. O Partido Socialista Republicano tem, desde a sua formação, baseado suas esperanças no sucesso desta política, e só pode estar feliz que a linha de ação que tinha rascunhado como a mais imediatamente prática - rascunhado após um estudo profundo das condições sociais e políticas deste país - está agora sendo tomada pelos trabalhadores da Irlanda. O fato que a maioria dos homens estão agora seguindo esta política repudiariam qualquer conexão com o Socialismo é uma prova maior da visão, sobre a natureza humana e desenvolvimentos políticos, possuída pelo bando de pioneiros que formularam este programa de ação, sabendo que o interesse próprio dos trabalhos forçaria tal ação, para além de toda teorização, ou conhecimento da suas maiores possibilidades.

Pessoas que falam das dificuldades no caminho do Socialismo, como regra, não percebem a natureza do plano de campanha Socialista. Os trabalhadores são uma classe subjugada, mas os trabalhadores estão em maioria; portanto os trabalhadores podem, ao votar juntos, expulsar de todo órgão público a maioria dos seus mestres, e substituir eles pela maioria de trabalhadores com consciência de classe - trabalhadores conscientes do fato que os trabalhadores são uma classe subjugada, e determinados a destruir tal subjugação de classe - e esta maioria de trabalhadores com consciência de classe podem votar para tirar toda indústria das mãos da classe mestre e investir ela nas mãos de associações de trabalhadores, a serviço de órgãos públicos. Estando em maioria os trabalhadores são irresistíveis - quando esclarecidos.

No curso desta socialização da sociedade, esta re-conquista gradual da Irlanda, os órgãos públicos em questão encontrarão enventualmente em seu caminho o governo capitalista Imperial; então o Trabalho, de um local dominante, se elevará a posição de um partido dominante nacional, e a luta pela independência completa será levada pela classe trabalhadora já em posse do governo interno do país, com todo o prestígio proveniente deste fato, e com todo a força proveniente da circunstância que qualquer ação que eles forem forçados a tomar será no desejo de proteger os interesses da maioria - os trabalhadores. Tal crise, que é inevitável se esta linha de ação for consistentemente seguida, levaria a questão do que é chamado independência nacional para o lar de cada trabalhador como uma luta pela segurança do seu pão diário, e sob tais condições a guerra pela liberdade não falhará pela falta de um exército de aderentes.

Portanto cada trabalhador que estude as condições sociais e políticas do dia deve ver que a política Socialista Republicana irlandesa, já tão justificada pela adoção inconsciente aqui apontada, é a única política que une em uma força irresistível dos interesses da Irlanda como Nação e os interesses da classe trabalhadora.