É frequentemente argumentado que os Socialistas são contrários à Lei e à Ordem, e isto é feito por homens e mulheres que encontram na crença implícita no argumento razão suficiente para tirar seu apoio do agressivo movimento Socialista. Nós não pretendemos acalmar essa seção dos nossos críticos negando nossa hostilidade aos poderes governamentais, mas sugeriríamos que uma breve e calma reflexão - suplementada por pesquisa histórica - sobre a origem e os usos dos termos "Lei" e "Ordem" pode ser útil para determinar se a sanção da legalidade seria suficiente para proteger qualquer instituição social ou política do ataque.
É válido lembrar desta conexão que todo movimento pela melhoria da condição da raça humana, todo passo adianta na civilização, tem a necessidade de se opor a Lei, e de perturbar a estabilidade da Ordem. O pioneiro do progresso sempre foi um inimigo da Lei, e dirigiu todos seus esforços para a destruição da Ordem. A razão é óbvia. A raça humana em seu progresso ascendente da selvageria, a cada movimento ascendente, encontrou a oposição da classe que, prosperando na miséria dos seus companheiros, encontrava sua segurança na manutenção do status quo e em todos seus males latentes. Esta classe se reunindo para suporte mútuo impôs nos companheiros mais fracos, ou menos astutos, certas regras e observâncias calculadas para enfraquecer o poder da multidão e aumentar os privilégios dos poucos. Essas regras e observâncias são chamadas de Lei, e nos primeiros estágios da história humana, e em menor grau hoje, a maioria da raça adquiriu o hábito de aceitar e até reverenciar tais regras ou Lei pelo mero fato da sua promulgação - especialmente quando tal promulgação data de um período anterior ao seu próprio nascimento como indivíduos. Esta cega, irrefletida aceitação pela maioria das regras feitas para sua própria sujeição, essa aquiescência passiva e apática da justiça da condição social e política de hoje, é chamada Ordem. Cada proposta feita pelos mais astutos e inteligentes para abolir tais regras iníquas é um ataque à Lei, e cada esforço para agitar a multidão do seu estado de sujeição submissa e inspirar nela um desejo para conquistar melhores condições de vida, é necessariamente direcionado para uma perturbação da Ordem. Mas o hábito de pensar engendrado pelo fato que tantas gerações tendo vivido sob o governo da Lei - apesar dessa Lei ser nada mais que as ordenanças de auto-preservação de uma classe tirânica - deu ao termo "Lei" uma influência diretora nas mentes dos homens que mesmo os amigos do progresso se sentem compelidos a seguí-la. O primeiro impulso do cidadão médio é dar aos uniformes e acessórios com que os juristas e administradores decoram seus ofícios uma reverência e obediência que eles de forma alguma dariam aos indivíduos na sua capacidade de cidadãos privados; de maneira parecida as ordenanças formuladas pela Câmara Legislativa aparecem ao povo investidas de um sabor peculiar de pseudo-santidade que nunca adquiririam como meras opiniões dos mediócres cavalheiros que geralmente as expressam. Então o reformador ou revolucionário encontra a linha de menor resistência para seu partido sugerida na observação desta tradição da Lei. Já que o povo quase involuntariamente obedece a Lei que capturemos a maquinaria de fazer-leis, e as novas ideias - obnóxias, traiçoeiras, ou heréticas, e portanto vistas com desconfiança hoje - aparecerão para eles com toda a pompa e panóplia da Lei, e eles prontamente se conformarão com as novas condições. Então todo partido descontente no Estado buscou capturar a maquinaria de fazer-leis do Estado. Desta maneira toda classe na Sociedade, do rei ao capitalista, sucessivamente capturou o poder político e quando entronizado na posse legalizou sua própria concepção de Sociedade. Cada classe teve um método diferente de explorar o Trabalho, e a luta pelo poder governamental tem sido uma disputa na qual cada classe ascendente sobre a classe trabalhadora buscou fazer sua maneira particular de se apropriar dos produtos do trabalho dos trabalhadores a única maneira legal. Nesta luta o mecanismo de governo tem sido gradualmente melhorado e extendido, e seu sufrágio alargado até que os meios de adquirir poder tem por fim ficado ao alcance da única classe subjulgada restante - os trabalhadores. A direção tomada pela revolta desta classe - o moderno movimento Socialista - tem então sido determinada pela história anterior da raça; francamente confessando sua hostilidade à Lei e à Ordem, mas suplementando este voto pela qualificação que é somente contra a Lei Capitalista e a Ordem Capitalista que sua hostilidade é dirigida. Como toda outra classe revoltosa no passado ela busca a captura da maquinaria de fazer-leis, para que na posse desse mecanismo de governo ela possa proceder para impor sua vontade às nações como uma lei diretora. Mas ela também sabe que a conquista de poder político pela classe trabalhadora revolucionária deve necessariamente resultar na completa transformação de toda a natureza do governo; que as formas atuais de governo são o reflexo de um sistema de sociedade baseado no domínio de classe, e pressupõe a existência de duas classes separadas - dominante e subjulgada, coercedora e coercida; que enquanto cada classe revoltosa no passado após o resultado bem-sucedido da sua luta tinha ainda uma classe subjulgada abaixo dela, e portanto manteve toda a maquinaria coerciva de governo para manter essa classe na sua posição subjulgada, a emergência da classe trabalhadora à luz do poder e da liberdade não deixará nenhuma classe na escuridão da sujeição; portanto as funções coercivas do governo não serão mais necessárias, e o primeiro dever da classe trabalhadora revolucionária após a derrubada do governo de classe, e abolição do roubo de classe, será tirar do Estado seu poder de governante político, e colocá-lo na sua verdadeira base de administrador industrial.
Então quando a Lei for as ordenanças auto-impostas de um povo livre - ordenanças auto-impostas no interesse da eficiência industrial e do bem-estar geral, quando a Ordem vier como resultado de um trabalho harmonioso de um sistema social justo, então o Progresso encontrará seus aderentes nos amigos da Lei, e o triunfo das suas ideias sem a perturbação da estabilidade da Ordem.
Mas enquanto a Lei for a conservação de todas as piores tiranias impostas pelo homem nos seus companheiros através da nossa longa e sangrenta história, enquanto a Ordem for apenas sinônimo de um submissão assustada de escravos apáticos, o Socialista continuará um inimigo da Lei, e um perturbador da Ordem.