Carta Aberta para o Castelo de Dublin(1)

James Connolly

13 de agosto de 1898


Primeira edição: publicado na Workers' Republic, em 13 de agosto de 1898.

Fonte: seção em inglês do Arquivo Marxista na Internet.

Tradução e HTML: Guilherme Corona.

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MEUS LORDES E CAVALHEIROS E HONORÁVEIS DIRETORES, - Hoje, vocês ocupam o assento do poder. Vocês são as 'autoridades constituídas', e sabendo, como eu sei, que nosso surgimento, mesmo que modesto, no horizonte político será para vocês um assunto de algum interesse, eu me apresso a dirigir-me aos honoráveis Lordes para deixá-los saber a razão e a origem da nossa chegada. Estou certo que os lordes e os honoráveis Diretores escutarão pacientemente o que tenho a dizer. Ao menos, se vocês não o quiserem, vocês certamente deveriam, porque sei que vocês tem tempo a disposição, não tendo necessidade para se preocupar com seu pão diário, já que a industriosa porém 'vulgar turba' a qual vocês tão gentilmente condescendem governar garante que vocês estejam aprovisionados com pão e com outras muitas coisas: em quantidades que são muito mais do que suficientes. Eu sempre notei, meus honoráveis lordes e cavalheiros, que quando a ocasião surge e pede, nas suas solenes instruções e conselhos para a 'vulgar turba', da qual eu faço parte, vocês sempre começam com a palavra considerando, e talvez pensando que entenderão melhor quando uma frase começa dessa maneira, eu então seguirei o exemplo dos honoráveis lordes. Se eu não o fizesse eu poderia errar, mas é claro que todos sabem que o que é feito pelos lordes deve ser correto, e se eles não entenderam, os lordes podem facilmente convencê-los, tendo a sua disposição todo o maquinário necessário, inclusive legal, para este objetivo. Dizendo isso, talvez referindo a um fato, para lembrar vocês do que é muito desagradável, mas vocês não podem fingir que vocês não foram rápidos em utilizar esse convincente maquinário quando a oportunidade ou necessidade ocorreu. Agora, para minha declaração.

CONSIDERANDO:

Foi descoberto, e é uma questão da experiência diária, que dentro dos limites da Irlanda a pobreza, a miséria, a degradação, os cortiços, o trabalho excessivo e o pagamento insuficiente [que ocorre] para aqueles trabalhadores que conseguem se vender na escravidão de algum membro da classe capitalista, e o desemprego com todos os seus latentes males de degradação, miséria e desdém para aqueles que sofrem quando seu esforço para fazê-lo é falho. A fome constante nos distritos agrícolas, a superpopulação e a miserabilidade geral nas cidades. Uma população em constante declínio, expulsa da terra pelo latifúndio predatório e despejada nas cidades, ou para ser usada como meio para rebaixar os salários daqueles que já estão lá no interesse do irmão gêmeo do latifundiário, o explorador capitalista da carne e sangue humanos, ou cruzando o oceano para outra terra, para lá engordar as fileiras da escravaria; para lá se tornar vítimas de um sistema amaldiçoado do qual tentou escapar. E considerando ainda que é manifesto que essas coisas não existem sem razão, e que os lordes professam ser incapazes de encontrá-la, cabe as massas do povo fazê-lo, sendo elas as partes mais interessadas, já que são as que mais sofrem.

É certo que eu devo admitir que os lordes frequentemente aplicam paliativos e medidas geralmente apaziguadoras para este terrivel mal social, esta ferida aberta nas costas da humanidade. Vocês professam que é tudo que podem fazer; na verdade vocês nunca cansam de afirmar que é tudo que pode ser feito. É verdade também que essas medidas apaziguadoras frequentemente aliviam a dor assim como a dor de um dente podre é aliviada pela aplicação de alguma suposta 'cura'. O dente, entretanto, ainda continua seu caminho de apodrecimento, e de novo e de novo causa a seu dono a penalidade natural de permitir a continuação da sua existência, até que o mal se torne insuportável, o sofredor finalmente decide remover a causa por meio dos cuidados e instrumentos necessários para esse objetivo; ou em outras palavras, meus lordes, remover completamente a causa do desconforto por meios que os lordes chamariam de 'revolução súbita', se aplicado a assuntos sociais ou políticos. Os paliativos não removem a causa da dor, eles somente abatem temporariamente sua força. Assim é, meus lordes, com o sistema econômico da sociedade de hoje.

Capitalismo, ou em outras palavras a propriedade privada de uma pequena minoria (sua classe, meus lordes) da terra e de todas as outras coisas necessárias para a vida da comunidade, é a maldição, a terrível ferida. A grande dádiva da natureza é abundamentemente distribuída, repleta de luxos assim como das necessidades da vida. Sua clase está em posse dela; a outra classe, agora comumente chamada de proletariado, possui nada além da sua própria habilidade para trabalhar, sua ocupação vitalícia é o trabalho de produzir. Eles produzem tudo o que existe. Sua classe então, como diz a lei, "fraudulentamente se apropria para uso próprio" de quase tudo o que eles produzem. Vocês recebem todos os luxos e o melhor das necessidades, a parcela deles é o resto; isto é, a menor e pior parte de tudo, e frequentemente ela não é suficiente. Coisas, meus lordes, que, se colocadas na sua frente, fariam seus narizes aristocráticos se contorcer de maneira mais eloquente do que palavras. Eles nunca descansaram ou pararam o trabalho de produzir e distribuir. Sua única ocupação é apostar entre si nas diferentes bolsas de valores para ver qual de vocês possuirá a maior parcela dos resultados do labor do trabalhador. Isto é capitalismo. Isto é o que vocês aclamam como o sistema competitivo da sociedade moderna. Isto é realmente um sistema competitivo, mas trabalhando de formas diferentes de acordo com as posses individuais das classes possuidoras ou despossuídas.

Os membros da sua classe detém a propriedade, e então, certos dos seus frutos, tem que, como disse, apenas apostar entre si (isto é, competir) por uma parcela maior do total. Mas a classe despossuída não tendo certeza de nada, compete entre si em um esforço para viver com a menor quantia possível para obter o direito de trabalhar, e então de viver.

Você nunca vê a classe despossuída competir entre si para ver quem conseguirá mais; oh! não. Não mais do que se vê a classe possuidora ou capitalista competir para ver quem ficará com menos. Essas são as belezas do sistema competitivo; que seja abençoado, por que deveriam tentar nos livrar dele?

É verdade entretanto, que queremos nos livrar dele, e é com este objetivo, que o que você chamaria de "fantasma vermelho do socialismo" está se espalhando em todo país onde o sistema existe. Nós colocaremos em seu lugar a propriedade cooperativa, ou Nacional, da terra e das indústrias necessárias para a vida do dia-a-dia. Originalmente, meus lordes, sua classe obteve a posse pela fraude; hoje vocês a mantém, parcialmente pela fraude e parcialmente pela força. A hora chegou, entretanto, quando uma democracia educada controlará e permeará as organizações de força, então sua fraude, suas investidas e falcatruas não servirão de nada.

O sistema da propriedade privada é a ferida aberta nas costas da humanidade que nós aludimos. Apesar da sua constante enrolação e medidas apaziguadoras, a dor e as pontadas estão se tornando mais e mais intoleráveis. Paliativos não servirão, o câncer deve ser arrancado. Meus lordes, quando o povo decidir que ele deve ser cortado, e a missão da propaganda Socialista é educar as massas para o ponto necessário de ter a operação de remover o câncer feita cientificamente e com sucesso.

SAOIRSE