Três telegramas sobre o Incidente de Xi’an

Zhou Enlai

Dezembro de 1936


Fonte para a tradução: Obras Escogidas de Zhou Enlai, t. I, Pequim: Ediciones en Lenguas Extranjeras, 1981, pp. 92-99.

Tradução e HTML: João Batalha.

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Nota da edição

Nos momentos críticos em que o imperialismo japonês buscava transformar a China em sua colônia, o Exército do Nordeste e o Exército da Décima Sétima Rota do Kuomintang, comandados, respectivamente, pelos generais Zhang Xueliang e Yang Hucheng, sob a influência do Exército Vermelho e do movimento popular antijaponês, exigiram de Chiang Kai-shek o fim da guerra civil e a união nacional para resistir ao Japão, demanda esta recusada por Chiang. Em 12 de dezembro de 1936, Zhang e Yang, em ação conjunta, prenderam Chiang Kai-shek em Xi’an. A facção pró-japonesa no Kuomintang, chefiada por Wang Jingwei e He Yingqin, tentou se aproveitar da oportunidade para deflagrar uma guerra civil em larga escala, se livrar de Chiang Kai-shek e tomar seu posto. Naquele momento, o Comitê Central do Partido Comunista da China adotou firmemente a política de se opor a uma nova guerra civil, resolver pacificamente o Incidente de Xi’an e forçar Chiang a resistir ao Japão, enviando a Xi’an, como seus representantes, os camaradas Zhou Enlai, Bo Gu (Qin Bangxian) e Ye Jianying. Graças aos esforços incansáveis de Zhou Enlai e de outros camaradas, o Incidente de Xi’an foi solucionado pacificamente, representando uma virada na situação geral da época. Essas novas circunstâncias possibilitaram a cooperação interna entre o Kuomintang e o Partido Comunista, bem como o rápido início, em escala nacional, da Guerra de Resistência contra a Agressão Japonesa. Os três telegramas aqui publicados foram enviados pelo autor ao Comitê Central do PCCh durante as negociações, sendo os dois últimos assinados conjuntamente pelos camaradas Zhou Enlai e Bo Gu.

I. As negociações com T. V. Soong
23 de dezembro de 1936

A. T. V. Soong, Soong Mei-ling e Jiang Dingwen(1) chegaram ontem a Xi’an. Chiang Kai-shek insinuou a T. V. Soong que estaria disposto a reestruturar o governo, convocar uma conferência de salvação nacional no prazo de três meses, reorganizar o Kuomintang e aceitar uma aliança com a Rússia e o Partido Comunista da China.

B. Hoje, Zhang Xueliang(2), Yang Hucheng(3) e eu realizamos negociações com T. V. Soong.

Primeiro. Apresentei as seis propostas do Partido Comunista da China e do Exército Vermelho:

1) Cessar-fogo e a retirada das tropas do Kuomintang para leste de Tongguan.

2) Reorganizar o governo de Nanquim, expulsando a facção pró-japonesa e admitindo elementos antijaponeses.

3) Libertar os prisioneiros políticos e garantir os direitos democráticos.

4) Interromper as campanhas de “extermínio dos comunistas”, aliar-se ao Exército Vermelho para resistir à agressão japonesa e permitir a atividade aberta do Partido Comunista. (O Exército Vermelho manterá sua organização e comando independentes. Até a convocação de uma assembleia nacional democrática, as zonas soviéticas(4) continuarão funcionando como antes, mas poderão acrescentar às suas denominações alguns qualificativos, como “Antijaponesa” ou “de Salvação Nacional”.)

5) Convocar uma conferência de salvação nacional em que participem os representantes de todos os partidos, grupos políticos, setores sociais e forças armadas.

6) Cooperar com todos os países que simpatizem com a resistência da China ao Japão.

Exigimos que Chiang Kai-shek aceitasse as seis propostas mencionadas e se comprometesse a implementá-las, prometendo, por nossa parte, que o Partido Comunista da China e o Exército Vermelho o apoiariam em seus esforços para unificar a China e opor resistência conjunta ao Japão. T. V. Soong manifestou sua concordância pessoal e prometeu transmiti-las a Chiang.

Segundo. As medidas sugeridas por T. V. Soong e a discussão subsequente:

1) Soong propôs, como primeiro passo, a criação de um governo de transição, o qual seria reorganizado em um governo antijaponês três meses depois. Por ora, seriam destituídos de seus cargos He Yingqin, Zhang Qun, Zhang Jia'ao, Jiang Dingwen, Wu Dingchang e Chen Shaokuan(5). Recomendou H. H. Kung para presidente do Yuan Executivo, a si próprio como vice-presidente e, simultaneamente, ministro das Finanças, Xu Xinliu ou, em seu lugar, Yan Huiqing para ministro das Relações Exteriores, Zhao Daiwen ou Shao Lizi (este último proposto por Zhang Xueliang e Yang Hucheng) para ministro do Interior, Yan Zhong(6) ou Hu Zongnan para ministro da Guerra, Chen Jiliang ou Shen Honglie para ministro da Marinha, Sun Fo ou Zeng Yangfu para ministro das Ferrovias, Zhu Jiahua ou Yu Feipeng para ministro das Comunicações, Lu Zuofu para ministro da Indústria, e Zhang Boling ou Wang Shijie para ministro da Educação. Por nossa parte, recomendamos as candidaturas de Soong Ching Ling, Du Zhongyuan, Shen Junru e Zhang Naiqi(7) como membros do Yuan Executivo. Soong ressaltou tratar-se apenas de um governo de transição, que seria totalmente reorganizado após três meses, quando se iniciasse oficialmente a Guerra de Resistência contra o Japão. Manifestamos nosso acordo em princípio, expressando o desejo de que T. V. Soong assumisse a responsabilidade por seu cumprimento e acrescentamos, ainda, que seria conveniente nomear Du Zhongyuan, Shen Junru e Zhang Naiqi como vice-ministros.

2) Soong sugeriu que Chiang Kai-shek regressasse a Nanquim assim que houvesse emitido a ordem de retirada das tropas, e prometeu que os sete líderes patriotas(8) seriam libertados após a chegada de Chiang a Nanquim. Insistimos que, antes de tudo, as tropas governamentais fossem retiradas e os líderes patriotas postos em liberdade.

3) Propusemos que, durante o período do governo de transição, fosse criado um Exército Unido do Noroeste, estabelecendo-se um comitê conjunto entre o Exército do Nordeste, o Exército da Décima Sétima Rota e o Exército Vermelho, sob a liderança de Zhang Xueliang, encarregado dos preparativos necessários para a resistência ao Japão, de modo que as tropas recebam treinamento adequado e as unidades do exército alcancem plena capacidade, cabendo ao governo de Nanquim a responsabilidade de assegurar a assistência material. Soong afirmou que esta proposta poderia ser transmitida a Chiang.

4) Declaramos que, se Chiang aceitasse as medidas mencionadas acima, discutiríamos diretamente com ele as questões pertinentes (as seis propostas supracitadas). Soong respondeu que deveríamos, primeiramente, nos encontrar com Soong Mei-ling (segundo T. V. Soong e Zhang Xueliang, ela é firme defensora da paz interna e da resistência ao Japão).

C. Caso aprovem os princípios expostos acima, negociarei com Chiang Kai-shek na qualidade de representante plenipotenciário. Porém, necessito que me informem a decisão quanto às condições a serem cumpridas antes de permitir o retorno de Chiang a Nanquim. Aguardo resposta imediata.

II. Os resultados das negociações com T. V. Soong e Soong Mei-ling
25 de dezembro de 1936

A. Resultados das negociações com T. V. Soong e Soong Mei-ling:

1) H. H. Kung e T. V. Soong ficarão encarregados de reorganizar o Yuan Executivo, cabendo a Soong a total responsabilidade de formar um governo satisfatório ao povo e expurgá-lo da facção pró-japonesa.

2) Ambos os Soong assumirão plena responsabilidade de assegurar a retirada das tropas e das forças governamentais, comandadas por Hu Zongnan e outros, do Noroeste. Jiang Dingwen levou consigo a ordem, escrita à mão por Chiang Kai-shek, de cessar-fogo e retirada das tropas (as forças da linha de frente já o fizeram).

3) Chiang Kai-shek comprometeu-se a libertar os líderes patriotas após o seu retorno, e nós poderemos publicar previamente esta notícia. T. V. Soong ficará responsável pela libertação.

4) Por ora, as zonas soviéticas e o Exército Vermelho permanecerão tal como estão. Ambos os Soong garantem que Chiang cessará sem falta as campanhas de “extermínio dos comunistas” e prestará assistência material ao Exército Vermelho por intermédio de Zhang Xueliang (T. V. Soong assegurou que nos será entregue a quantia que Zhang Xueliang acordar conosco). Quando, dentro de três meses, se iniciar a resistência contra o Japão, o Exército Vermelho mudará de denominação, passará a integrar um comando unificado e entrará em operações conjuntas.

5) T. V. Soong indicou que, em vez de convocar uma assembleia nacional, será realizada, primeiro, uma reunião do Kuomintang para suprimir o monopólio do poder e, posteriormente, será convocada uma conferência de salvação nacional com a participação de diversos partidos e grupos políticos. Chiang Kai-shek expressou que está disposto a reorganizar o Kuomintang no prazo de três meses.

6) T. V. Soong prometeu libertar todos os prisioneiros políticos em grupos sucessivos, consultando-se com a Madame Sun Yat-sen quanto à forma de proceder.

7) O Partido Comunista poderá atuar de forma aberta assim que se iniciar a Guerra de Resistência.

B. Chiang Kai-shek está doente. Quando me encontrei com ele, declarou:

1) Que poria fim às campanhas de “extermínio dos comunistas”, unindo-se ao Exército Vermelho para resistir ao Japão, e que a unificação da China se daria sob sua liderança.

2) Que T. V. Soong, Soong Mei-ling e Zhang Xueliang teriam plenos poderes para representá-lo nas discussões comigo a respeito da solução de todos os problemas (os mencionados acima).

3) Que, após seu retorno a Nanquim, eu poderia ir até lá para negociar diretamente com ele.

C. T. V. Soong insistiu que confiássemos nele e mostrou-se disposto a assumir total responsabilidade pelo cumprimento dos termos referidos. Solicitou que Chiang Kai-shek e Soong Mei-ling pudessem partir ainda hoje. Zhang Xueliang concordou e colocou-se à disposição para acompanhar Chiang pessoalmente. Yang Hucheng e nós manifestamos concordância com as condições acordadas. Somente consideramos necessário emitir um documento político antes da partida e não concordamos que Chiang partisse hoje, nem que Zhang o acompanhasse. Porém, antes que nosso aviso chegasse a Zhang, este já havia partido, acompanhando pessoalmente Chiang Kai-shek, Soong Mei-ling e T. V. Soong em um voo para Luoyang.

D. A nosso ver, houve uma mudança real na atitude de Chiang Kai-shek enquanto aqui esteve. Demonstrou-se sincero ao delegar a T. V. Soong o encaminhamento dos assuntos, e este, por sua vez, revelou-se realmente determinado a empreender a resistência ao Japão e a reorganização do Yuan Executivo. Por isso, embora seja lamentável que se tenha permitido a partida de Chiang e que Zhang o tenha acompanhado, o rumo geral dos acontecimentos foi positivo.

E. Nossas disposições militares atuais permanecem inalteradas e as tropas estão em estado de alerta.

(Quando estava prestes a partir, Chiang Kai-shek disse a Zhang Xueliang e a Yang Hucheng: “Até hoje, a responsabilidade por uma guerra civil, caso viesse a eclodir, caberia aos senhores; de agora em diante, caberá a mim. Doravante, não empreenderei nenhuma campanha de extermínio dos comunistas. Se cometi algum erro, reconhecê-lo-ei; mas, se foram os senhores que o cometeram, também devem reconhecê-lo.”)

III. A situação e nossa política após a solução pacífica do Incidente de Xi’an
29 de dezembro de 1936

Apresentamos, a seguir, nossas opiniões para sua apreciação:

A. A solução pacífica do Incidente de Xi’an marca o início de uma nova etapa na vida política da China. Isso significa:

1) A interrupção dos ataques ao Exército Vermelho;

2) O iminente fim da política de concessões nas relações exteriores;

3) A formação embrionária de uma frente única nacional;

4) A possibilidade imediata de transformar as províncias de Shaanxi e Gansu em bases de apoio antijaponesas.

B. O Incidente de Xi’an e sua solução pacífica assinalam a diferenciação e o realinhamento das forças de classe e, sobretudo, um processo de divisão definitiva no campo burguês. Seu significado reside em ter impulsionado e consolidado a aglutinação das forças de esquerda dentro do campo burguês e em ter desacreditado a ideia de um caminho intermediário. Contudo, o processo de divisão ainda não foi finalizado e, de modo geral, ainda existem três grupos: o antijaponês, o capitulacionista e o moderado. As novas mudanças são as seguintes:

1) As forças antijaponesas se fortaleceram e foram, ao menos parcialmente, legalizadas;

2) Desferiu-se um golpe mortal contra a facção pró-japonesa;

3) Os elementos moderados começam a se aproximar da ala esquerda (embora o façam de forma vacilante e lenta, como de costume, isto é, procurando manter os alicerces de sua posição intermediária).

Nossa política deve combater a facção pró-japonesa, consolidar as forças de esquerda, tendo o Noroeste como pilar central, e influenciar e conquistar os moderados.

C. O governo chefiado por H. H. Kung e T. V. Soong será um governo de transição. Adotará uma postura relativamente firme nas relações da China com o Japão — problema fundamental no momento — e provavelmente dará alguns pequenos passos quanto à questão da democracia, mas é evidente que continuará a seguir a velha linha em muitos outros aspectos. Devemos tratá-lo, de fato, como um governo de transição, ou seja, promover e apoiar suas tendências antijaponesas, esforçar-nos para que realize gradualmente reformas democráticas, ainda que pouco significativas, e, ao mesmo tempo, não relaxar, de forma alguma, nossas críticas às suas debilidades. Como todo governo de transição, será inevitavelmente vacilante e terá diferentes possibilidades de desenvolvimento ulterior. Precisamos combater cada uma de suas vacilações e pressioná-lo para que se converta em um governo antijaponês.

D. Dadas essas circunstâncias, o movimento pela convocação de uma conferência de salvação nacional antijaponesa é de importância decisiva para mobilizar, despertar e organizar as massas, bem como para impulsionar desdobramentos mais favoráveis. Devemos combinar a demanda dirigida ao governo de Nanquim, que exige a convocação de uma conferência de paz interna, com um movimento popular que reivindique tal conferência. No entanto, a definição da data e a garantia de seu êxito dependerão do crescimento desse movimento popular. Trata-se de um elo importante no curso dos acontecimentos, fator chave para conferir maior caráter de massas à frente única antijaponesa.

E. Outro elo central no desenvolvimento da situação reside em consolidar o Noroeste e tornar realidade a possibilidade de convertê-lo em uma base de apoio antijaponesa e em uma região-modelo da frente única. Para isso, é necessário:

1) Formular e implementar um programa comum de cooperação entre as três partes e um plano militar para o Noroeste;

2) Fortalecer e reformar os exércitos sob o comando de Zhang Xueliang e Yang Hucheng; permitir que o Exército Vermelho descanse e se consolide, regularizando-se em novas bases; garantir a cooperação e a ajuda mútua entre as três partes, em um espírito recíproco de respeito e solidariedade;

3) Iniciar e expandir os movimentos de massas e, a partir disso, democratizar e reorganizar os órgãos locais do governo;

4) Solucionar a questão da nacionalidade Hui em Ningxia, Qinghai e no oeste de Gansu.

F. Devemos manter nossa posição de promotores e organizadores da unidade nacional para a resistência contra o Japão. Por um lado, desde que haja acordo quanto à resistência ao Japão e à luta contra os elementos pró-japoneses, temos que cooperar com as forças esquerdistas de Nanquim e conquistar os moderados para o nosso campo; por outro, devemos nos unir às diversas correntes políticas fora de Nanquim e, tendo o Noroeste como centro e a resistência ao Japão como pré-condição e objetivo, agir como uma força capaz de empurrar Nanquim para a esquerda.

G. Devemos transformar todo o trabalho do Partido, adaptando-o às novas circunstâncias, para que este assuma o papel dirigente na vida política do país. Precisamos:

1) Retomar o trabalho do Partido nas grandes cidades, antes de tudo, entre a classe operária;

2) Transformar as unidades guerrilheiras dispersas por diversos locais em forças camponesas de autodefesa, de modo que se tornem focos disseminadores do movimento camponês;

3) Transferir o Comitê Central para um local mais favorável à direção da vida política de todo o país;

4) Educar e reeducar os quadros.